Para além de Sucata: Estratégias Baseadas em Dados para reutilizar Painéis Sandwich
- digimatria
- há 7 dias
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Este artigo explora os resultados de um estudo de métodos mistos realizado na Península Ibérica e França. Ao combinar o Metabolismo Urbano com um inquérito a stakeholders e entrevistas industriais, identificamos por que razão a circularidade permanece estagnada no setor da construção industrial e como as ferramentas digitais podem — ou não — colmatar esta lacuna.
1. Metabolismo Urbano: A Janela de Intervenção de 2030
O conceito de Metabolismo Urbano trata o ambiente construído como um stock "vivo" de materiais. Entre 2005 e 2015, Portugal, Espanha e França registaram uma expansão massiva de centros logísticos e industriais, resultando num stock de 240 milhões de m² de painéis sandwich com faces de aço.
À medida que estes edifícios atingem um ciclo de renovação de 20 a 25 anos, espera-se uma "onda" de remoções entre 2025 e 2030. Este timing é crítico. Atualmente, estes painéis são tratados como resíduos para serem reciclados como sucata de aço. No entanto, como muitos são removidos devido a mudanças funcionais nos edifícios e não por degradação técnica, representam um "reservatório antropogénico" significativo de componentes funcionais.

2. Realidades Qualitativas: Insights de 5 Entrevistas-Chave
Para contextualizar os dados, realizámos entrevistas semiestruturadas com cinco atores-chave: proprietários de edifícios, subempreiteiros de demolição e projetistas. Estas entrevistas revelaram motivos "latentes" que os inquéritos muitas vezes ignoram:
A Fragilidade da Logística: Especialistas em demolição referiram que a "desconstrução seletiva" raramente é orçamentada nos contratos. Sem um comprador claro, o custo da remoção cuidadosa (6–9 €/m²) é visto como uma perda financeira em comparação com a demolição rápida.
O Vazio do Seguro: Os projetistas expressaram que, mesmo com dados perfeitos, a falta de uma "avaliação de conformidade" padronizada para segurança contra incêndios torna a especificação de painéis reutilizados um risco profissional que não estão dispostos a assumir.
Resistência Cultural: As entrevistas destacaram uma "cultura de risco" organizacional onde o novo é sempre sinónimo de "seguro", independentemente do que os dados dizem sobre o desempenho residual do material.
3. Cenário 1: Construção de Novo Armazém
Apresentámos três níveis de aquisição para uma nova construção a 11 stakeholders que gerem projetos superiores a 15.000 m²:
Opção A (Novo - 40 €/m²): A escolha padrão para 70% dos inquiridos.
Opção B (Reutilização Certificada - 30 €/m²): Painéis usados com deteção de danos e estimativas de vida útil.
Opção C (Reutilização Ad-hoc - 20 €/m²): Painéis não certificados.
O Veredito: Embora a Opção B seja a mais sustentável de acordo com os dados da Avaliação de Ciclo de Vida (ACV), carece do quadro legal para competir com a Opção A. A Opção C foi amplamente rejeitada, provando que a poupança de custos por si só não consegue criar um mercado secundário.

4. Cenário 2: Intervenções em Armazéns Existentes
Na gestão de um ativo envelhecido, foram avaliadas quatro estratégias:
Opção A: Substituição total (40 €/m²).
Opção B: Reparação direcionada e adiamento da substituição (26 €/m²).
Opção C: Substituição por painéis reutilizados certificados (33 €/m²).
Opção D: Reparação Ad-hoc (15 €/m²): Remendos localizados e não certificados.
A Conclusão: A Opção D foi fortemente rejeitada. Os stakeholders viram-na como uma solução "penso rápido". A falta de certificação técnica torna-a inviável para os padrões de segurança e seguros industriais, pois oferece previsibilidade zero quanto ao desempenho futuro ou valor de revenda do edifício.

5. Motores Financeiros: Realidades de LCC e ACV
CAPEX vs. OPEX: Painéis novos (alto CAPEX) são a rota segura, mas a monitorização digital permite uma mudança para um OPEX otimizado. Ao reparar em vez de substituir, os proprietários podem prolongar a vida útil, embora isto exija dados de alta qualidade para justificar o investimento.
O Conflito: Os dados de ACV sugerem que a reutilização é a única forma de atingir metas agressivas de redução de carbono. No entanto, o LCC da "desconstrução seletiva" aproxima frequentemente o preço de revenda de um painel reutilizado ao de um novo, dificultando a justificação do risco percebido.
6. O Passaporte de Material: Uma Solução Parcial
Um Passaporte de Material integrado em BIM visa resolver a Lacuna de Informação, registando classificações de fogo, composição do núcleo e níveis de corrosão.

Crítica à Abordagem do Passaporte: O Passaporte de Material não é uma "solução milagrosa". Permanecem obstáculos significativos:
Desfasamento de Responsabilidade: Um passaporte fornece dados, mas não uma garantia legal. Se um painel reutilizado falhar, o detentor do passaporte não é necessariamente a parte responsável, criando um vazio legal.
Fricção Logística: Dados digitais não resolvem o problema físico do armazenamento de painéis volumosos. O desfasamento temporal entre a oferta (demolição) e a procura (nova construção) continua a ser um grande entrave.
Custo dos Dados: O trabalho necessário para inspeções de alta tecnologia (drones/sensores) pode degradar a vantagem de preço da reutilização, tornando a opção circular potencialmente mais cara do que o material virgem.
Na economia circular, um painel sem dados é apenas sucata — mas um painel com passaporte é um ativo na redução do risco da construção do futuro.



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